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DESGRAÇA E BENÇÃO

Uma história dos tempos de Lao Tsé

Estátua de Lao Tsé em Quanzhou, China (Foto: tom@hk/Flickr)

Havia na China antiga um velho camponês muito pobre, possuidor de um lindo cavalo branco, que até imperadores invejavam. Reis ofereciam quantias fabulosas pelo animal, mas o homem dizia: 

– Este cavalo não é um simples cavalo a ser usado por mim: ele é como uma pessoa amiga. E como se pode vender uma pessoa, um amigo? 

O homem era pobre, mas jamais o quis vender. Numa certa manhã descobriu que o cavalo não estava mais na cocheira. A aldeia inteira se reuniu, e as pessoas disseram: 

– Seu velho estúpido! Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado. Teria sido melhor se o tivesse vendido. Que desgraça! 

E o velho respondeu: 

– Não cheguem a tanto. Digam simplesmente que o cavalo não está mais na cocheira. Este é o fato, o resto é julgamento. Se é uma desgraça ou uma bênção, não sei, pois este é apenas um fragmento [de um todo]. Quem pode saber o que virá a seguir? 

As pessoas riram do velho. Elas sempre o julgaram meio maluco. Mas quinze dias depois, numa noite, o cavalo voltou (ele não havia sido roubado, e sim fugido para a floresta). E não apenas isso: trouxe consigo uma dúzia de cavalos selvagens. Novamente as pessoas se reuniram, e disseram: 

– Velho, você estava certo. Não se tratava de uma desgraça. Na verdade, provou ser uma bênção. 

– Vocês estão novamente se adiantando – falou o velho. Digam apenas que o cavalo está de volta. Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é somente um fragmento. Ao ler apenas uma única palavra de uma sentença, como se pode julgar o livro todo? 

Desta vez as pessoas nada podiam dizer, mas interiormente pensavam que ele estava errado. Afinal, doze lindos cavalos haviam vindo. 

O velho tinha um único filho, que começou a treinar os cavalos selvagens. Uma semana depois ele caiu de um cavalo e fraturou as pernas. De novo as pessoas se reuniram e uma vez mais julgaram, dizendo: 

– Você tinha razão, novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas, e na sua velhice ele era seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca! 

– Vocês estão obcecados por julgamentos – retrucou o velho. Não se adiantem tanto. Digam apenas que o meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos. Mais do que isso nunca nos é dado. 

Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. Só o filho do velho foi deixado para trás, por estar aleijado. A cidade inteira chorava, lamentando-se, porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria. E outra vez as pessoas vieram até ao velho, e disseram: 

– Você tinha razão, velho, aquilo se revelou uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre. 

– Vocês continuam julgando – disse o velho, mais uma vez. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que o meu não foi. Mas somente Tao, a Totalidade, sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça. Não se deve julgar, pois dessa maneira jamais nos tornaremos unos com a Totalidade. Você ficará obcecado com fragmentos e pulará para conclusões a partir de coisas pequenas. Quando você julga, deixa de crescer. Julgamento significa um estado mental estagnado. E a mente sempre deseja julgar, pois estar em processo [aceitando o fluxo das coisas] parece algo arriscado e desconfortável. 

Na verdade, a jornada [da vida] nunca chega ao fim. Um caminho termina, outro começa. Uma porta se fecha, outra se abre. Você atinge um cume, descobrirá sempre um outro mais alto. O Tao [O Caminho] é uma jornada sem fim. Somente os corajosos a ponto de não se importarem com a meta mas se contentarem com a jornada e viverem simplesmente o momento presente e nele crescer, somente estes são capazes de caminhar com o Tao, a Totalidade. 

Autor desconhecido 

Nota: O termo Tao tem vários significados, mas "o derradeiro significado do Tao é o espírito, o divino, o insondável, aquilo que se deve reverenciar no silêncio".

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